terça-feira, 6 de março de 2012

Agora, só pagando

Como eu disse no outro post,  a Áustria nao atrai muitos brasileiros interessados em estudar aqui. Será culpa desse alemao hostil? Ou quem domina essa língua madrastra prefere conviver nos Campus alemaes e suícos?

Eu sempre quis estudar fora. Quando adolescente, meu sonho era fazer um ano de High school nos States. Sem qualquer informacao, do desejo nunca se esbocou um plano, concluindo que seria caro de mais para o bolsinho de mamae. Anos depois, quando finalmente pude pagar por um curso de ingles, em terras canarinhas mesmo, fiquei sabendo que intercambio é muito mais acessível do que supoe: meu primeiro professor de ingles, por exemplo, cuja única qualificacao se resumia a ter feito dois anos de High School em Terras do Tio Sam, me contou que sua família também era pobre e que o pai financiara a passagem  e o pacote em 24 vezes  e que ele arrumara uma Host family que lhe dava mesada!  E ele trabalhava duas vezes por semana no Mac Donalds, e pode assim pagar ele mesmo as prestacoes da passagem e custos do intercambio. Se eu soubesse...

Depois de fazer dois anos de ingles, pude ir fazer meu tao sonhado intercambio. Seis meses. Irlanda. Depois do primeiro semestre, resolveri que ficaria mais um ano lá, e queria estudar outra coisa que nao ingles, mas as faculdades da Irlanda nao sao nada Gratis! Para pessoas de fora da EU, eram 10.000 eurecas por um ano de mestrado. Pagos à vista. Sem chances.

E na Áustria? Bem, até hoje, faculdade, mestrado e doutorado sao totalmente gratuitos pra qualquer um. E ainda se recebe bolsa. Tao fantástico. Sabia que tem vaga sobrando? Exceto pra quem nao abre mao de estudar medicina/direito/ engenharia, nenhum curso tem vestibular, porque há vagas de sobra, nao é lindo? Estudar de graca no exterior e ainda receber bolsa. Eu sempre achara que todo mundo que vinha estudar na Europa era rico pacas! 
Mas aí que o ensino superior vem clamando por um aumento de verbas e uma reforma urgente. O governo desconversou, procrastinou e nada. Daí o conselho universitário decidiu: autonomia pras EES decidirem se cobram ou nao matrícula. Como a corda sempre arrebenta pro lado mais fraco, seis das maiores Unis decidiram: a apartir do próximo semestre, quem nao for cidadao europeu vai ter de pagar € 390 por semestre. Ainda assim acho affordable, e voce?

mais aqui: links em alemao, lista das Unis que vao cobrar dos farasteiros

E se voce ainda tem interesse em aproveitar a chance antes que acabe, confira aqui a lista de todas as outras EES que ainda nao vao cobrar

segunda-feira, 5 de março de 2012

Da formacao

Entao, se uma estrangeira sem qualquer estudo no país de origem tiver forca de vontade e informacao, vai poder conseguir ter um profissao aqui. Cabeleireira, manicure, esteticista, auxiliar de enfermagem, pedagoga de ensino infantil, padeira, confeiteira, motorisa de onibus e trem, mecanica, etc.
O primeiro passo é se dedicar de corpo e alma a aprender alemao (até o nível B1, faz- se de graca nas escolas de integracao, ainda recebendo cerca de 13 euros por dia mais vale transporte mais auxilio creche/baba pra quem tem filho).
Quando o idioma estiver dominado,  é hora de escolher o caminho a seguir. Se a pessoa nao tem nem o ensino  fundamental no Brasil (antiga 8° série), deve procurar as VHS- Volkshochschule (escola de educacao para adultos). Em quase todas as unidades sao oferecidos o supletivo da grundschule. A grundschule/ pflicht (nove anos de escolaridade) é  requisito mínimo pra se seguir em qualquer qualificacao.
Aí a maneira mais prática e rápida seria fazer o Lehre, o aprendizado na prática de uma profissao que inclui trabalhar e frequentar em certos períodos uma escola profissionalizante para a teoria. Essa modalidade pode ser seguida para as profissoes de cabeleireiro, esteticista, confeiteiro, tecnico em logistica e transporte, metalurgica, auxiliar de industria quimica... Tem uma lista enorme aqui. Normalmente, os lehrling, ou aprendizes, recebem pouco, mas pra mulheres no Programa de Wiedersteiger (voltar ao trabalho depois da maternidade), recebe algo rasoável.
O Lehre pode levar até 3,5 anos. Entao muitas escolas profissionalizantes oferecen um curso de 1,5 ano com a mesma equivalencia. Cheque por BFI
Pra quem tem interesse em trabalhar na area de (pflegeberufen) enfermagem, há simplismente MILHARES de vagas. Nessse exato momento,  somente a capital está oferecendo desesperadamente 1200 vagas. Em quais cargos? 
Por uma formacao de 4 meses, obtem-se a qualificacao como Heimhelferin, o popular brasileiro: cuidar de idoso. Aqui, a Heimhelferin tem de ter carteira de motorista, a agencia de cuidados em casa do idoso lhe dá uma rota de alguns idosos e  a profissional fará essa rota todo dia: visita o idoso, checa pressao, se ele tomou remédio, se é preciso  que se faca compras, marcar consultas pra ele/a, levar ao médico... 
Ou pode fazer o Kindergartenhelferin: auxiliar de educacao infantil, um ano de curso
Pra quem quer um pouco mais, há de se fazer o supletivo do segundo grau: Berufsmatura, daí dar pra seguir para os cursos técnicos e superiores:
Com um ano e meio de curso, será habilitada como auxiliar de enfermagem: Pflegehelferin, cargo bem equivalente ao brasileiro. Com tres anos nesse mesmo curso: habilitacao plena como técnico em enfermagem.
Quem quiser o equivalente ao nosso antigo Magistério, é só fazer 3 anos de curso. Nesse caso, o link sou eu: a escola de magistério de Viena fica aqui do lado do meu ape) Passa aqui pra tomar um café que eu te levo lá. Pra todas as outras cidades, basta se informar na AMS.
No mais, há os caminhos regulares: escolas técnicas diversas, faculdades. E muitos programas de fomento à mulher, especialmente na recolocacao de mercado depois da  longa licenca maternidade, com garantia de cursos grátis e bolsa auxílio.
Infelizmente, tudo em alemao. As agencias publicas austriacas ODEIAM quem nao fala a língua e nem adianta ir lá sem tradutor...

quinta-feira, 1 de março de 2012

Oi? Desculpa aí, acho que voce me entendeu errado

"Oi? Qual o problema em ser faxineira? Feio é ser preguicosa e folgada, vivendo às custas do marido e do sistema social"
"OI? Eu sou casada com gringo e nao aprendo a lingua local porque nao quero, nos falamos em ingles"

Como eu nao aceito comentários anonimos, recebi uma porrada de email com mais ou menos essas argumentacoes acima. Uma pena que as comentaristas nao quiseram se identificar, porque eu nao tenho medo de criticas, acredito que nao me expressei bem e essas colocacoes seriam muito oportunas e renderia um bom debate. Pra quem nao entendeu, o foco do post sobre expatriadas em desvantagem NAO SE TRATA de " Ta se achando, só porque tem faculdade".

Gente, em claro e bom Portugues: o foco aqui nao é menospresar o trabalho bracal. Todo trabalho é digno. E faxineira deveria ganhar mais do que qualquer um, porque nao tem trabalho que seja mais dificil. Prefiro resolver mil equacoes diferenciais ou escrever 20 relatório de laboratório do que lavar meu minúsculo banheiro.
E eu nao disse que todo mundo tem de aprender a língua local, estava me referindo a quem nao fala qualquer língua possível de se comunicar no novo país  e vive, portanto, às margens, muitas vezes sob situacao de risco e violencia, sem poder se defender.
E nao, eu nao sou preguicosa: aprender alemao do zero para o avancado em 18 meses nao envolveu simplismente me jogar no sofá a ver TV: eu estudava Gramática e vocabulário seis horas por dia! E a vida academica nessa língua madrastra é a coisa mais difícil que já empreendi na vida. 
E quanto ao fato de viver as custas do marido: bem, se tivessemos ido pra o Brasil como eu queria, eu teria de sustentá-lo enquanto ele nao falasse portugues e portanto, tivesse chances de se colocar no mercado. 
E quanto ao sistema social: a cultura aqui é de mulher nao trabalhar, só ser dona de casa, mas com o envelhecimento e encolhimento da populacao, nao haverá pessoas sufucientes na ativa, contribuindo com a previdencia, portanto, o estado, fazendo bem o papel que lhe cabe, investe na formacao do cidadao pra que ele pague em retorno através dos impostos. 
Porque se eu nao estudasse aqui pra me colocar no mercado de trabalho, o plano B (sugerido insistentemente pelo marido) é: ter logo dois ou tres  filhos, receber a bolsa familia  e depois nunca ter condicoes de encontrar um trabalho devido à idade e desqualificacao pra o mercado, resultando que eu nunca contribuiria pra previdencia e ainda assim seria apta a receber aposentadoria... Sai mais caro pro estado, entende? E pessoas bem qualificadas ganham bem mais e pagam portanto MUITO mais imposto. Investimento do poder público, entendeu?

Voltando entao ao exclarecimento: tratei naquele post da perspectiva desiludida de algumas expatriadas. Sendo eu mesmo de origem pobre, vi centenas de vizinhos emigrarem com um  foco: tentar uma vida melhor. As vezes, isso se define por trabalhar 16 horas por dia nos States pra juntar um pé de meia. E no caso aqui tratado: a mulher casada com um austríaco poderia ter uma oportunidade.
Todo cidadao austriaco assim como dependentes do mesmo, tem o direito constitucional de ter uma profissao! Quer seja através do ensino regular ou de cursos extra curriculares, o Estado vai lhe proporcionar uma formacao. De que forma?  Conto no próximo post, que esse já está longo.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Situacao boa na pátria, situacao boa na Austria


Enquanto que na Irlanda os estrangeiros chegam na maioria com visto de estudante, aqui, acredito que bem pouco dos milhares   de forasteiros assim o estejam. Segundo a agencia de integracao, fora os turcos, bosnios croatas e uguslavos, a maioria dos vistos emitidos sao pra marido/ esposa de austríaco ou europeu.

 Nessa situacao, encontram-se muitas mulheres cuja vida de expatriada nao  tem muito a oferecer: de origem simples, e sem oportunidades no pais de origem, muitas nao tem o segundo grau completo,  as vezes nem mesmo o ensino fundamental. Costumavam trabalhar no pais de origem de faxineira, "massagistas", etc,  e residem na Austria pela razao única de ser esposa de um austríaco, marido esse conhecido ora pela internet ou quando o gringo foi passear em terras tropicais, esbanjando a poupanca que juntara durante muitos anos, levando um estilo de turista que se passa por rico. Moca se apaixona perdidamente, e faz as malas sem mesmo dominarem uma língua em comum pra conversar. No comeco, só sexo mesmo.  Coragem! 
Ou desespero?

Chegando aqui,  logo se dá conta de que o gringo é quebrado e portanto lhe cabe como primeira tarefa arrumar um emprego... Muitas nunca aprenderao o alemao. . Tinha uma tailandesa cujo o marido aprendeu o idioma da moca num nivel quebra-galho e nao via  a menor necessidade da mulher fazer curso de alemao (que  é totalmente gratuito e ainda se recebe bolsa auxilio).
Mesmo assim, a mulher desse aí foi aprendendo alemao por osmose.  Aí o marido da mulher nao gostou nada disso... Ele sente saudade de quando a mulher nao falava nada em alemao e a comunicacao se resumia ao minimo por meios de palavras catadas no tradutor. Do tipo "comida pronta?" ou, mais tarde, "Abre as pernas! "
Segundo minha amiga africana de Gana,  "situacao boa na pátria, situacao boa na Austria."
Essa ganesa só pode fazer curso de alemao 12 anos depois de chegar aqui, após  um divórcio litigioso de um casamento em que ela se resumia a ser a empregada doméstica e sexual de um grinco que nunca lhe proporcionou qualquer possibilidade de integracao. E ela nunca reclamou, porque afinal a vida era meio parecida lá na Africa. E nas tentativas de obter algum progresso na vida, ouvia do marido:
"Ta reclamando de que? De ter de trabalhar de faxineira? La voce fazia o mesmo, mas voce comia mal, morava mal ... Agora aqui mora bem, come até salmon de vez em quando".


Ps: quem conhecer mulheres em situacao de risco, pode encaminhá-las ao:
1) http://www.lefoe.at/ centro de apoio à mulher latina, aqui em Viena (atendimento em espanhol e portugues). 
2)http://www.aoef.at/cms/index.php?option=com_content&view=article&id=50&Itemid=60&lang=de abrigo de protecao e aconselhamento de mulheres (em toda a austria).
3) Helpline: discar: 172 (ingles e alemao).

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Da mae e o non-retorno

Daí que mae, já viu, né, escuta e entende exatamente o que quer.
Entao eu andara em crise e ligava lá, cheia de chororo.
E falava por alto: pois é, viver  é assim uma coisa de rotina mais ou menos, tudo igual, qualquer lugar.
... Sendo que aqui, acrescentam-se as dificuldades em ser estrangeira,
de ser odiada por (alguns) racistas preguicosos que já de cara embirram
com meu nome  impronunciável pelos falantes dessa língua linda deslizante como leite condensado.
Enquanto que aí tem voces,
E os amigos e amigas perfeitas
E pao de queijo, broa de milho e bolo de aipin fresquinho da padaria
Todo dia
E goiabas colhidas no fundo do quintal
E café de verdade
E sol.

Mais tarde,  ligo lá e mae indaga: entao, qandé q ce volta?
Voltar, como assim, maria?




terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Stop ACTA

No dia 12 de junho, o parlamento europeu vai se sentar pra votar a favor ou contra censura na internet. Enquanto isso, a mobilizacao pró e contra já  acontece.
foto tirada daqui: heute.at  

Se depender do polemico Secretário Nacional de Integracao, Sebastian Kurz, e da Ministra de Assuntos Interiores, Mikl.Lentner essa república votará contra a ACTA, a favor da liberdade na internet. A midia nao deu muita bola.Esses dois exemplares do governo nao seriam de muito peso, passariam despercebidos e portanto, para o partido de situacao,  lhe caberiam bem segurar essa bandeira um tanto "espinhosa", seria como ficar em cima do muro. Se fosse um lider maior aqui em campanha, seria uma tomada de posicao, mas sendo o Kurz...aquele que trata de assuntos menores, tipo, hum, integracao de imigrantes.

Ps: O Kurz é o político mais novo e descolado daqui, ele transformou a polemica de sua colocacao totalmente a seu favor: ele é o político com mais popularidade em todo o país e revoluciona a abordagem fazendo uso de todas as ferramentas da internet: seu facebook recebe milhares de visitas e já se propagou a lenda de que ele responde pessoalmente aos emails encaminhados à sua pessa pública.

foto:  Kurz provomovendo a multiculturalidade em Zell am See, a cidade do M.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Os brasileiros e o futebol de Salzburg

Futebol nessa república alpina é; digamos assim, um pouquinho mais interessante do que a liga amadora do campeonato de bairros de onde nasci. Austriaco sabe esquiar, pra jogar futebol, sao assim como eu pra esquiar.
E já que  todo mundo concorda que brasileiro e bola se entendem,
 o Redbull, aquele do energético,  que é o dono do time de futebol da província de Salzburg, RBS- Redbullsalzburg e que tem dinheiro sobrando, resolveu investir no que há de melhor. O futebol salzburgueano tem assim um lugar garantido pra brasileiro. Desde que cheguei aqui, a estrela era o Alan, que nao tava mandando muito bem nos campeonatos do ano passado, e toda hora se ouvia: "ah esse brasileiro nao está fazendo jus à fama e ao salário".
Antes que sua presenca fosse discutida, porque brasileiro é aqui chamado pra jogar por 11, o moco machucou-se, tadinho rompeu os ligamentos do joelho.

Mas como o Red bull continua vendendo bem e nao  tem nada a perder mesmo, resolveu contratar mais brasileiros, pra dar um apoio moral ao Alan, quem sabe. Um homem só ser responsável pelo campo inteiro deve ser contra os direito desses trabalhadores, sim?  Fato é que agora sao seis brasileiros no RDB.


Aí a nova temporada comecou, embora sob frio de 15 graus negativos, e neve siberiana.
Semana passada no jogo da  primeira rodada da Liga Européia,  contra o  ukraniano Metalist Charkiw,  O RBS perdeu por 4X0! 


O povo se enfureceu! As cabecas brasileiras talvez tivessem rolado, nao fosse um detalhe: O time ucraniano tem metade de sua tropa composta por Brasileiros e Argentinos, veja a ironia. Entao,  provar-se ía que o problema nao sao os brasileiros?
Marido, a la coracao  corintiano fiel, sofre mas nao abandona o time nunca. Resolve até pedi uma consultoria à mais  leiga em futebol do mundo:
-Mas Schatzie, seis brasileiros! Uma merda de jogo! O que é isso? Eles tao com preguica em campo! Nem parecem brasileiros! Scheiße.
Sei, lá  tesouro, vai ver que é o frio! Eles acabaram de chegar, aposto que nunca jogaram dentro de uma camera fria antes... Diz-se que os bolivianos levam vantagem quando jogam contra os brasileiros em La Paz, devido à altitute.
- Sim, mas os brasileiros jogando pela Ucrania estavam so a mesma condicao climática e nos golearam 4x0.
- Uai, bem,  entao vai ver que o problema é a direcao. Sugira ao Red bull contratar também um tecnico brasileiro ou argentino, e substitua o time inteiro por latinos; jogadores nacionais só na reserva, como a ucrania, quem sabe vcs dao o troco na próxima.